






A pergunta tema deste encontro (26/07/08) teve como objetivo retomar as questões anteriores e do conteúdo produzido pelos participantes, assim como traçar um perfil da identidade individual e coletiva de cada um promovendo a discussão e a reflexão sobre a formação de suas identidades. Para tanto, o método utilizado para que cada um falasse sobre sua identidade foi baeado nas noções de tempo e espaço e suas relações com as seguintes indagações:
1) Origem (por quê?);
2) Presente (o que tem a ver com a origem?);
3) Perspectivas (com base nos tempos anteriores).
Em relação à pergunta sobre a origem de cada um, a intenção foi fazer um resgate sobre a trajetória dos familiares (pais, avós, bisavós) e seus entrelaces como forma de concepção, sendo que isso se mostrou importante como uma primeira herança na construção da identidade dos participantes. Fiocu evidente os objetvos das famílias para a mudança para a capital paulista, uma vez que todos têm suas raízes fora do estado de São Paulo.
Já a questão sobre o presente teve como finalidade saber como a origem de cada um se relaciona com o presente, ou seja, quais foram os motivos determinantes na trajetória dos participantes para caracterizá-los como são atualmente, refletindo sobre a conquista, ou não, dos objetivos traçados pelos seus familiares.
Sobre as perspectivas, o intuito foi de abordar quais os passos e possibilidades que os integrantes da oficina têm em relação ao futuro, como agregar mais elementos em suas identidades e também na constituição de novas identidades que se geraram ou gerarão na história de cada um, além de externarem sobre as possibilidades da localidade onde moram.
Segue nas linhas abaixo a resposta dada pelos participantes para a pergunta sobre suas identidades:
Srº Aparecido
Origem: Nasceu em Pitangueiras, interior do Estado de São Paulo. Filho de mãe baiana, de origem indígena, e pai mineiro. Segundo suas informações, os pais migraram para o interior de São Paulo em busca de oportunidades de trabalho no corte de cana.Em sua trajetória pela cidade, seu Aparecido trabalhava em uma fazenda, sendo que em um período do ano ele exercia as atividades de tratorista e em outro a de trabalhador da usina, seis meses anuais para cada atividade. Casou-se ainda
Presente: Em 1972 veio para a cidade de São Paulo em busca de novas oportunidades de trabalho – seu primeiro emprego na cidade foi trabalhando com serviços bancários - e melhoria financeira. Sempre morou na zona leste da cidade, primeiro no bairro de Artur Alvim e, no começo da década de 1980, adquiriu um apartamento na COHAB II, Itaquera, onde reside até os dias atuais.
Perspectivas: Em relação às perspectivas, a intenção é “ficar aqui para sempre”, sendo que, seguindo seus passos, seu Aparecido acredita que os filhos também não sairão do bairro, pois, apesar de terem feito faculdade, esta não acarretou em mudanças significativas em suas vidas. Os filhos trabalhando no bairro (comércio e prestação de serviços).
O blog do Sr. Aparecido - Celito/Catito - pode ser visto aqui. é o blog com maior número de postagens, com formato interessante: em geral, reproduz matérias sobre música, eventos do bairro e exibe seus versos. Sempre com muitas imagens em foto e vídeo!
Srº Minervino
Origem: Paulistano
Em 1940 sua família vem para São Paulo em busca de oportunidade de trabalho e ascenção. Conseguem emprego na indústria. Estabelecem residência na zona leste da cidade, onde continuam até os dias de hoje. Segundo suas próprias palavras, “a trajetória familiar foi de sucesso”, tanto em termos de aquisições, realizações de sonhos e também de firmar uma base para novas gerações.
Presente: Assentada a família e com o Estudo fazendo parte dos objetivos (ainda ao lado do trabalho), mora no bairro de Guaianazes, trabalhou durante bom tempo na Secretaria de Cultura. Atualmente está aposentado e sempre busca novos conhecimentos em cursos oferecidos pela Obra Social Dom Bosco e também em outros espaços, como o curso técnico de informática que fará em uma das Escolas Técnicas Estadual – ETEC – localizada em Guainazes, após ser aprovado no ultimo vestibulinho com ótima colocação.
Perspectivas: Com relação às suas perspectivas, pretende continuar morando no mesmo local, e os objetivos para ele e sua família, incluindo os sobrinhos, é de estudar e trabalhar. Vê o presente como a melhor maneira de sempre estar voltado para o futuro através da busca constante em novos conhecimentos e realizações de sonhos. O blog dele pode ser visto aqui. Muito bem articulado, com clareza de raciocínio, até o momento seu blog tem poucas postagens. Minervino diz que até finalização da oficina pretendia se empenhar ao máximo no conteúdo trabalhado, e só após é que começaria a publicar seus textos. Esperamos para ver!
Vladimir
Origem: Nasceu no bairro dos Pimentas, em Guarulhos, no de 1976. Filho de pai paulista e mãe mineira, Vladimir ainda ressaltou que seu bisavô materno era português. Apesar de ter nascido na cidade de Guarulhos, mudou-se ainda recém nascido para a zona leste de São Paulo, mais precisamente no bairro de Guainazes, onde mora até hoje. Neste mesmo local constituiu sua formação escolar até completar o ensino médio.
Presente: Atualmente está com 32 anos e tem como atividade principal a dedicação religiosa e a leitura da bíblia.
Perspectivas: A única perspectiva citada por Vladimir é a sua certeza de continuar morando no mesmo bairro, sendo que afirmou não ter pretensão alguma de deixar o local onde mora por questão de identificação. O blog dele - Tremendo Rocha - pode ser visto aqui, é rico em conteúdo sobre religião, embora reproduções de outros sites. Aguardamos seus textos publicados!
Léia
Origem: Nasceu em 1994 na cidade de São Paulo. Filha de pais paulistanos que eram moradores do bairro Iguatemi, zona leste, desde a década de 1970, além de ter avós pernambucanos. Até 1994, sua mãe trabalhava na indústria e após esse período buscou outras oportunidades no setor de serviços, onde ainda trabalha atualmente.
Presente: Desde seu nascimento mora no bairro Savoy City, local escolhido por seus pais devido à proximidade com seus empregos. Léia estuda em seu bairro, está cursando o ensino médio. Também vê na música um importante elemento constituinte de sua identidade e gosta muito de escutar variados estilos musicais.
Perspectivas: Pretende concluir seus estudos no ensino médio e fazer faculdade de direito e, também, se dedicar a escrita por gostar de escrever.
O blog dela - o melhor das músicas brasileiras - pode ser visto aqui. Aliás, o blog é um ótimo espaço para treinar a escrita, que tal escrever sobre música ou noticiar os eventos de seus bairro?
Após todos falarem sobre suas origens, o presente e suas perspectivas, trabalhamos as ligações entre as trajetórias individuais, e como elas se relacionam (de maneira direta ou indireta) a determinados períodos da história do Brasil, do Estado e da cidade de São Paulo, além dos locais onde os participantes moram, observando que estes temas estão interligados como constituinte das identidades individuais e coletivas.
Usando as noções de tempo e espaço mediado por motivos, foi criado um quadro para sintetizar os principais elementos que se entrelaçam e são decisivos na constituição das identidades;
Assim, notamos que todos têm sua oriegem em outra região do país, que não São Paulo. Os objetivos iniciais - de seus antepassados - são os mesmos: a busca de melhor emprego para asceção financeira. Deste modo, suas histórias se relacionam com o período de industrialização do país, como tratado na questão "Por que você mora neste bairro?".
Posteriormente, com as bases familiares já formadas na zona leste da cidade, um novo elemento passa a fazer parte dos objetivos: o estudo! "Trabalhar para estudar" passa a ser uma idéia constante para as primeiras gerações destas famílias nascidas em são Paulo. Começa a se observar também uma mudança no perfil profissional das famílias: se antigamente agrícola ou industrial, aos poucos passamos a ter trabalhadores no setor de serviços. O desenvolvimento tecnológico a partir dos anos 1970 e a abertura econômica são fatores decisivos para esta mudança.
Por fim, as perspectivas mostram uma inversão dos objetivos: "estudar para trabalhar", entendendo com isso que o estudo passou a ser condição para a boa empregabilidade (e realização de ascenção). Isso tem a ver com o pleno desenvolvimento tecnológico e a fragmentação do conhecimento em especialidades.
Um ponto em comum, é que todos pensam em continuar morando no bairro, assim como veêm também seus familiares com esta perspectiva. Mas se todos devem permanecer no bairro, e se educação e trabalho são aspectos fundamentais para a realização dos sonhos, temos que prestar atenção na situação destes aspectos no bairro e propor mudanças. É neste ponto que vamos focar nossos esforços no ultimo encontro!

Dentro, um quadro no café mostra em detalhes como era a cidade em meados do século XIX: a Várzea do Carmo, o Gasômetro e as antigas construções.
Aliás, a rua chama-se Boa Vista porque era uma atrativo para as famílias aos finais de semana ver a Várzea do Carmo, quando estava cheia (repare as partes em azul claro no quadro). Na seca, (e já no século XX) o terreno era usado para as partidas de futebol de operários, e daí "futebol de várzea". Que nome se daria hoje à rua?
Ainda no Páteo, temos idéia das transformações vividas pela cidade através da arquitetura:


Seguindo pela Boa vista (conhecida também como a rua dos bancos - primeiro centro financeiro da cidade), chegaremos até o mosteiro de São Bento, outro ponto turístico bastante visitado (pelo lado de fora) da capital:
Voltando pela Líbero Badaró, em direção ao Largo São Francisco - onde se localiza a primeira faculdade de direito (e até hoje tradicional) da capital -, entramos nas ruas internas ao triângulo. Aqui encontramos, por exemplo, um edifício que é a bandeira do estado de São Paulo:



Outros hábitos, no entanto, permanecem. Flagramos, por exemplo, a existência de uma horta cuidada por garis num dos raros espaços livres do centro (vista da Boa Vista):

Continua também o comércio ambulante, que desde 1850 procura espaço nestas ruas movimentadas e se defronta com o poder público (a eterna busca do sustento!).
Da mesma forma que buscamos na cidade as marcas de seu desenvolvimento e da sua identidade, podemos olhar para nós mesmos e para nosso bairro para buscar a nossa identidade e a relação desta com o todo (os outros, a cidade e o país)!
______________________________________
fotos: por João Paulo Fagundes Ledo em aula de campo de Antropologia, em 2006.
No dia 07.06, discutimos a experiência de cada participante com a escola, e suas percepções sobre os aspectos estruturais e organizacionais; preferências e carências.
Com o auxílio de usuários do Telecentro, levantamos algumas informações sobre a situação atual percebida pelos alunos, principalmente pela Léia. Foram destacados os seguintes aspectos:
- Há laboratórios de informática, porém não estão permanentemente à disposição dos alunos, que só o utilizam sob a supervisão de um professor, além de ter inúmeros sites bloqueados (msn, orkut etc.) que embora não sejam de pesquisa, são importantes para a inclusão digital. Tanto é que muitos preferem utilizar os Telecentros.
- A estrutura contempla todos os ambientes necessários para o ensino: quadras, bibliotecas etc., mas os espaços estão deteriorados. Ainda assim, a quadra é o espaço preferido pelos estudantes.
- Os alunos mais novos (média de 10 a 15 anos) não sabem dizer quais os assuntos tratados atualmente nas disciplinas escolares.
- Reclamam dos professores, que não desenvolvem uma didática que proporcione o interesse dos alunos.
Os participantes mais velhos apontaram diferenças importantes sobre a escola de ontem e a de hoje:
Segundo Minervino e Aparecido, a escola não tinha como principal função educar para o mercado de trabalho. Mesmo porque, muitas pessoas vieram para São Paulo sem instrução, e mesmo assim tinham a garantia de conseguir emprego.
Estes participantes têm facilidade de lembrar do conteúdo estudado, ao contrário do que ocorre hoje.
Ao final, os partiipantes elaboraram uma lista com os principais problemas:
- Falta de relacionamento entre a direção da escola e o bairro;
- Falta de segurança para os professores (sugerem modificações no ECA para coibir atos de violência dos alunos)
- Falta de professores (atualmente há muitas aulas vagas)
Em resumo, chegamos a conclusão de que os problemas do ensino tem como causa alguns fatores que estão além dos muros da escola.
No dia 14.06, a discussão foi sobre a importância da educação e do espaço público para a formação da identidade/cidadania, passando pelos problemas tratados no encontro anterior. Deste modo, o encontro foi norteado por um texto publicado no blog http://www.pulaomuro.blogspot.com/, que trata exatamente dos problemas externos que influenciam no ambiente escolar: a atual crise de valores, a qual agrega aspectos morais (nas famílias), passando por aspectos educacionais e até mesmo de ordem econômica.
É fato que ha décadas o formato das famílias vêm se alterando. Hoje, é grande a quantidade de pais separados e, mesmo os que estão juntos, há o problema da falta de tempo, uma vez que homens e mulheres trabalham, ficando menos tempo com os filhos. Com isso, a educação que vem da família, que tem mais a ver com a formação individual da criança (formação de caráter, se assim posso dizer), fica prejudicada. Observamos que, em muitos casos, os pais esperam que a escola os substitua nesta tarefa. A escola tem a função da educação para a sociabilidade. Isto é, ela deve ser um complemento da educação familiar, e NUNCA sua substituta. Como demostra o IDESP, atualmente o ensino público é de má qualidade, o que siginifica dizer que ele não consegue realizar nem o seu prórpio objetivo: a construção da cidadania, quanto mais substituir a educação familiar. Assim, temos que muitas crianças não recebem a devida atenção no lar (e aqui não estou criticando os pais, mas propondo uma reflexão sobre nosso atual modo de vida), e também não são devidamente educadas para a cidadania, na escola, configurando uma crise de valores
Por fim, e como complemento, relacionamos ainda um outro fator.
A partir de meados dos anos 1970, o Brasil entrou numa fase de abertura econômica, acompanhando o período de democratização. De forma mais intensa, verificamos nos anos 1990 a mudança no padrão de consumo dos brasileiros. Mais eletrodomésticos, mais carros, enfim, toda uma série de novos produtos passaram a fazer parte do horizonte da massa trabalhadora. Embora haja a disponibilidade destes produtos e dos novos padrões de vida, o acesso a eles ainda não é fácil. As pessoas não têm dinheiro para comprar os bens que, hoje, elas julgam necessários. Daí a grande quantidade de financiadoras, empréstimos etc, etc. Quando conversamos com pessoas mais velhas sobre as dificuldades vividas na juventude, eles dirão que mesmo para as pessoas que vinham de outras regiões do país, rapidamente se conseguia comprar uma casa. Geralmente, as famílias eram constituídas por jovens de 20 e poucos anos, e já com casa própria. Hoje, as pessoas não conseguem sair de casa sem se endividar muito.
Quanto a educação, não foi dada a devida atenção no sentido de formar cidadãos. Ou seja, os eforços ficaram concentrados na abertura econômica, e esqueceu-se da democratização. E sem cidadania não há democracia. E daí se fala muito hoje em crescimento, esquecendo-se do desenvolvimento. Ora, um país pode crescer, produzir mais e mais.... mas de que forma sua população está participando disso?
As novas gerações, desprovidas da educação básica - como foi colocado nos parágrafos anteriores - parecem ter incorporado este novo padrão de consumo como principal valor - na falta de outros. E pra isso fazem qualquer coisa. "Ser alguém" hoje, é TER!
Essa deterioração do respeito humano tem como principal característica o que alguns sociólogos chamam de "coisificação". Isto é, ver-se como coisa e tratar os outros como coisa (objetos). Repare que isto independe de classe social, são aspectos que perpassam todas as camadas sociais.
______________
Blog Pula o Muro. Sobre a atual crise de valores (a causa da causa). 11.junho.2008